
Mas sei que amanhã eu vou me pegar com um sorriso de ontem estampado no rosto. Porque eu sou disso, sou de ser passado. Vivo num eterno presente-passado. Conturbado, mas feliz. Tudo que vivi guardei não só na memória, mas no bolso também. Para que quando eu perca a cabeça tudo continue ali, comigo. Para que eu não esqueça das aulas chatas na quinta série, da professora Áurea de português, que mesmo com aquela voz irritante me fazendo ter sono e dormir quase a aula toda me ensinou a diferença entre mais e mas, coisa que tem gente que até hoje não sabe diferenciar. Para não esquecer dos gritos estéricos de todos os meus coleguinhas de turma na hora do recreio, quando eu ainda estava no pré escolar e a minha única preocupação era encontrar alguém que trocasse o lanche comigo, porque era revoltante ter que levar bananas e maçãs enquanto via todos os outros comendo biscoitos recheados de morango e chocolate. Para não esquecer daquele meu pijama velho que hoje encontra-se no fundo da gaveta em que as calças pescam e o casaco já bem curto deixa a mostra parte dos meus braços. Para não esquecer também de quando juntavam-se todos os meus primos no quintal para passarmos a tarde toda pulando corda, jogando bola e fazendo bolinhos de barro… Pois é, nós somos um tanto quanto complicados. Resolvemos assim, de uma hora pra outra, querer esquecer algo que simplesmente não tem como. A não ser que você faça uma lavagem cerebral ou enquanto anda distraído pela rua bata a cabeça num poste e perca a memória. Porque fora isso a gente não esquece de nada. Nem das lembranças boas muito menos das ruins, inclusive essas são as que nós mais lembramos. Posso rever as cenas em minha mente, como se fosse ontem, aquele meu primeiro arranhão no joelho quando João me deu um impulso forte demais no balanço e eu voei em direção ao cimentado como um passarinho novo sem prática de vôo. Ardia bastante, confesso; mas eu segurei as lágrimas. Quando pequena nunca fui do tipo de menina manhosa que chorava por qualquer coisa. Mas veja só que ironia da vida, agora, depois de “burra velha” (como sempre diz minha mãe) resolvi virar essa menina manhosa e chorona. Chorei tanto quando tive o meu coração partido pela primeira vez, cortei tantas vezes as minhas mãos tentando sem sucesso catar aqueles pequenos caquinhos para tentar recompor algo que não precisa da minha ajuda pra isso, só do tempo. As cicatrizes vivem em mim, mas não nas mãos, e sim na alma. Acho que se existisse um raio X pra alma e a minha fosse vista passaria a ser chamada de boneca de pano. Toda remendada e costurada, coitada! Mas, com o tempo, a dor vai se acomodando. O que antes doía bastante hoje já faz parte de mim e eu quase não posso mais sentir. Parece que a dor arrumou um sofazinho no meu peito, se acomodou, ligou a TV e ta lá, relaxada e despreocupada! Tão confortável que me faz sentir assim também. Não que a dor agora me conforte, claro que não! Mas quando você se acostuma com ela definitivamente não machuca mais… Com o passar do tempo você entende que não precisa mais chorar quando se se tem um sorriso tão lindo pra por no rosto. Você não precisa brigar com alguém porque ele não gosta de morangos, ocupe esse tempo provando a fruta preferida dele. Pare de querer adaptar as pessoas aos seus gostos, suas maneiras. Tente fazer isso consigo! Pare de reclamar que nada vai pra frente quando você mesmo só da passos pra trás. Pare de falar muito e fazer pouco. Tá na hora de agir viu… — Luana Rabello, ac(alma)

Dizem que se você sonhar com algo mais de uma vez, isso se torna realidade.
Alice no País das Maravilhas.

